1842 — 1927
"O Rei do Café"
Fazendeiro, empresário e maior cafeicultor de Minas Gerais.
Uma das figuras centrais da Zona da Mata Mineira no auge da cafeicultura.
Pesquisa e Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
Cândido Bernardino Teixeira Tostes (1842–1927)
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
Quando Cândido Bernardino Teixeira Tostes morreu em 1927, aos 85 anos, já era reconhecido como um dos homens mais influentes de Minas Gerais. Conhecido como "Dr. Candinho" e chamado por seus contemporâneos de "Rei do Café", destacou-se como fazendeiro, empresário e presidente do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, tornando-se uma das figuras centrais da economia da Zona da Mata Mineira durante o auge da cafeicultura.
Nascido em Juiz de Fora em 1842, era filho de Antônio Dias Tostes, integrante de uma família que participou da ocupação e do desenvolvimento da região desde o início do século XIX. Formado em Direito, dedicou sua vida à administração de propriedades rurais e à expansão dos negócios familiares.
Foi proprietário de importantes fazendas da Zona da Mata, entre elas a São Mateus e a Fortaleza de Santana, esta última incorporada ao seu patrimônio após uma longa disputa envolvendo heranças e dívidas. Além de sua atuação empresarial, participou da fundação da Liga Mineira Contra a Tuberculose, em 1900, e esteve envolvido em diversas iniciativas filantrópicas e religiosas de Juiz de Fora.
Sua trajetória se confunde com a própria história do crescimento econômico da região e ajuda a compreender o papel da cafeicultura na formação da sociedade mineira no final do século XIX e início do século XX.
Informações compiladas por Pedro Lorenzo Raggio Neto.
Antônio Dias Tostes
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
A história de Cândido Teixeira Tostes começa muito antes de seu nascimento. Ela começa com Antônio Dias Tostes, o patriarca que lançou os alicerces da fortuna e da influência da família na região de Juiz de Fora.
Os Tostes eram originários de São João del-Rei, onde acumularam riqueza durante o ciclo do ouro. Com o declínio da mineração no final do século XVIII, como ocorreu com diversas famílias mineiras da época, voltaram-se para uma nova atividade econômica: a agricultura. O destino escolhido foi a região da Zona da Mata, então em processo de ocupação.
Foi nesse contexto que Antônio Dias Tostes iniciou a formação de um vasto patrimônio fundiário. Beneficiado por sesmarias e por sucessivas aquisições de terras, tornou-se um dos maiores proprietários da região. Em 1808, comprou de Francisco Gonçalves Lage parte da Fazenda Marmelo, uma das propriedades mais antigas da futura Juiz de Fora. Poucos anos depois, em 1812, adquiriu de José Vidal a Fazenda do Juiz de Fora e o restante da Fazenda Marmelo, consolidando uma posição de destaque entre os grandes proprietários locais.
Além dessas terras, Antônio Dias era proprietário da Fazenda Graminha e de extensas áreas que deram origem a outras propriedades importantes da região. Entre elas estava a Fazenda Fortaleza, uma das mais antigas do município, posteriormente vendida em 1841 e incorporada a outros grandes patrimônios rurais da Zona da Mata.
A importância da família Tostes ultrapassou a atividade agrícola. Ao lado das famílias Vidal Leite, Barbosa e Cerqueira Leite, os Tostes integraram o grupo de proprietários que participou da formação econômica e territorial de Juiz de Fora. Por décadas, essas famílias exerceram forte influência sobre a vida política, social e econômica da região.
Heinrich Wilhelm Ferdinand Halfeld
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
O legado de Antônio Dias Tostes também deixou marcas permanentes na própria configuração urbana da cidade. Após sua morte, suas terras foram divididas entre seus doze filhos. Essa partilha deu origem ao primeiro núcleo efetivo de povoamento na margem direita do rio Paraibuna: as terras foram divididas em 12 faixas paralelas e transversais à Estrada Nova, a atual Avenida Rio Branco, traçada pelo engenheiro Henrique Halfeld. Não por acaso, Halfeld era casado com Cândida, filha de Antônia Dias Tostes, neta do patriarca, mostrando como a família Tostes estava entrelaçada com os próprios fundamentos físicos e humanos da cidade.
Foi nesse ambiente de grandes propriedades rurais, expansão agrícola e crescente prosperidade econômica que nasceu, em 1842, Cândido Teixeira Tostes. Herdando não apenas terras, mas também uma posição de destaque na sociedade local, ele levaria a influência da família a um novo patamar, tornando-se um dos maiores cafeicultores de Minas Gerais.
Informações compiladas por Pedro Lorenzo Raggio Neto.
Maria Luiza de Rezende Tostes e Getúlio Vargas – Fazenda São Mateus, 1936
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
O casamento de Cândido Teixeira Tostes com Maria Luiza de Rezende uniu duas das famílias mais influentes da história de Juiz de Fora e da Zona da Mata Mineira.
Maria Luiza era filha de Geraldo Augusto de Rezende, o Barão do Retiro, e de Maria Carlota Mendes Tostes. Seu pai foi vereador, presidente da última Câmara Municipal de Juiz de Fora durante o período monárquico e um dos fundadores do Asilo João Emílio. Grande proprietário rural e figura de destaque na vida pública local, recebeu de Dom Pedro II o título de Barão do Retiro em 1889.
Pelo lado paterno, Maria Luiza era neta de José Ribeiro de Rezende, o Barão de Juiz de Fora. Considerado uma das personalidades mais importantes da cidade no século XIX, foi presidente da Câmara Municipal entre 1853 e 1856, juiz de paz, tenente-coronel da Guarda Nacional e proprietário de extensas terras na região. Em 1881, recebeu de Dom Pedro II o título de Barão de Juiz de Fora. Entre suas contribuições para a cidade, destaca-se a doação do terreno onde foi construído o primeiro cemitério público municipal.
Geraldo Augusto de Rezende, pai de Maria Luiza. Vereador, presidente da última Câmara Municipal monárquica de Juiz de Fora e fundador do Asilo João Emílio. Título concedido por Dom Pedro II em 1889.
José Ribeiro de Rezende, avô materno de Maria Luiza. Presidente da Câmara Municipal (1853–1856), tenente-coronel da Guarda Nacional. Título concedido por Dom Pedro II em 1881.
Ao casar-se com Maria Luiza, Cândido Tostes aproximou-se de uma família que ocupava posição de destaque na política, na administração pública e na sociedade local. A união fortaleceu os laços entre os Tostes, protagonistas da ocupação territorial e da expansão da cafeicultura na Zona da Mata, e os Rezende, uma das mais tradicionais famílias da elite juiz-forana.
O casal teve quatro filhos e manteve forte presença na vida econômica, social e filantrópica de Juiz de Fora durante o final do século XIX e o início do século XX.
Informações compiladas por Pedro Lorenzo Raggio Neto.
Cândido Bernardino Teixeira Tostes
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
Nas últimas décadas do século XIX, Cândido Teixeira Tostes tornou-se um dos maiores produtores de café de Minas Gerais. À frente de extensas propriedades rurais na Zona da Mata Mineira, construiu uma fortuna baseada principalmente na cafeicultura, atividade que transformou a região em um dos mais importantes polos econômicos do país.
Suas fazendas produziam café em larga escala, mas também mantinham atividades complementares, como o cultivo de cereais, arroz, feijão, cana-de-açúcar e fumo, além da criação de gado, produção de leite, laticínios e aguardente. Essa diversificação contribuiu para a solidez de seus empreendimentos e para a expansão contínua de seu patrimônio.
Ao longo da vida, reuniu algumas das mais importantes propriedades rurais da Zona da Mata, entre elas as fazendas São Mateus e Fortaleza de Santana, que se tornariam símbolos de sua prosperidade e influência econômica.
"A dimensão de suas terras, o volume de sua produção e sua posição de destaque entre os grandes proprietários rurais fizeram com que fosse reconhecido por seus contemporâneos como o maior cafeicultor de Minas Gerais."
Foi dessa reputação que surgiu o apelido que o acompanharia pelo resto da vida: "Rei do Café".
Informações compiladas por Pedro Lorenzo Raggio Neto.
Entre todas as propriedades de Cândido Teixeira Tostes, nenhuma esteve tão associada ao seu nome quanto a Fazenda São Mateus. Localizada a cerca de 12 quilômetros do centro de Juiz de Fora, a fazenda tornou-se o principal símbolo de sua fortuna e da dimensão de seus empreendimentos agrícolas.
Adquirida por Cândido Tostes em 1890, a propriedade transformou-se em uma das maiores fazendas da Zona da Mata Mineira. Com aproximadamente 2.397 hectares, figurava entre os maiores estabelecimentos rurais da região em uma época em que a cafeicultura representava a principal atividade econômica de Minas Gerais.
A importância da propriedade era tamanha que ela passou a ser frequentemente utilizada como exemplo da concentração fundiária característica da economia cafeeira da Zona da Mata. Seu tamanho e capacidade produtiva colocavam a fazenda entre os maiores empreendimentos rurais de Juiz de Fora no final do século XIX e início do século XX.
Fazenda São Mateus – Visita de Getúlio Vargas, 19/04/1934
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
Fazenda São Mateus – Visita de Getúlio Vargas, 1934
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
Fazenda São Mateus – Visita de Getúlio Vargas, 1934
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
Foi na Fazenda São Mateus que Cândido Tostes consolidou a posição que lhe renderia o apelido de "Rei do Café". A relevância histórica da fazenda permaneceu mesmo após a morte de seu proprietário. Em maio de 1935, o governador de Minas Gerais, Benedito Valadares, transferiu temporariamente a sede do governo estadual para a Fazenda São Mateus. Foi ali que promulgou o decreto que criou a Indústria Agrícola Cândido Tostes, homenagem ao fazendeiro que havia transformado a propriedade em uma das mais importantes da história da agricultura mineira.
Décadas depois, o nome de Cândido Tostes continuaria ligado ao ensino e à pesquisa agropecuária por meio do tradicional Instituto de Laticínios Cândido Tostes, uma das instituições mais conhecidas de Juiz de Fora.
A incorporação da Fazenda Fortaleza de Santana ao patrimônio de Cândido Teixeira Tostes foi resultado de uma longa e complexa história envolvendo heranças, dívidas e disputas judiciais.
Antes de chegar às mãos de Cândido, a propriedade pertenceu a algumas das famílias mais importantes da região. Suas origens remontam ao início do século XIX, quando fazia parte das terras dos Pereira de Souza. Posteriormente, passou ao Tenente José Joaquim de Santana, de quem herdou o nome que conservaria ao longo das décadas.
Após a morte do Tenente, em 1845, a fazenda foi herdada por sua filha, Maria José de Santana, que recebeu o título de Baronesa de Santana em 1861. Ao lado de seu filho, o Comendador Mariano Procópio Ferreira Lage, transformou a propriedade em uma das mais importantes fazendas cafeeiras da Zona da Mata Mineira. Em seu auge, a fazenda possuía centenas de escravizados e figurava entre os maiores empreendimentos agrícolas da região.
A morte da Baronesa, em 1870, deu início a um longo processo sucessório. Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade para Cândido Teixeira Tostes. Em fevereiro de 1890, concedeu a Frederico Ferreira Lage um empréstimo hipotecário de 200 contos de réis, tendo a fazenda como garantia. Em 1901, após os herdeiros não conseguirem liquidar a dívida, a propriedade passou definitivamente para seu patrimônio.
Maria Luiza de Rezende Tostes e Getúlio Vargas
Fazenda Fortaleza de Santana
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
Sede da Fazenda Fortaleza de Santana
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
Sede da Fazenda Fortaleza de Santana
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
Uma das primeiras propriedades incorporadas ao patrimônio da família. Em 1808, Antônio Dias Tostes adquiriu parte da fazenda e, em 1812, concluiu a compra das terras. Tornou-se um dos pilares da formação do patrimônio familiar e uma das mais antigas da região de Juiz de Fora.
Também pertencente a Antônio Dias Tostes, integrava o conjunto de grandes propriedades que deram origem à fortuna da família. Localizada ao sul do atual município, desempenhou papel importante na expansão das atividades agrícolas dos Tostes durante o século XIX.
Esteve ligada à trajetória da família desde o período de formação de Juiz de Fora. Situada em uma área ocupada desde os tempos do Caminho Novo, passou pelas mãos de integrantes da família Tostes e permaneceu associada à presença do grupo na região ao longo do século XIX.
Informações compiladas por Pedro Lorenzo Raggio Neto.
A influência de Cândido Teixeira Tostes não se limitava às fazendas, aos negócios e à atividade bancária. Como outros membros da elite juiz-forana de seu tempo, participou de instituições voltadas à assistência social, à saúde e à vida religiosa da cidade.
Em 1900, integrou a primeira administração da Liga Mineira Contra a Tuberculose, entidade criada em Juiz de Fora para combater uma das doenças mais graves da época. A Liga reunia médicos, empresários, fazendeiros, advogados e lideranças locais que buscavam arrecadar recursos e promover iniciativas de assistência à população.
Os registros da instituição apresentam Cândido Tostes como bacharel em Direito, agricultor, católico e participante de outras organizações beneficentes da cidade. Sua presença na direção da Liga demonstra o prestígio e a influência que já exercia na sociedade local.
Benemérito da Santa Casa de Juiz de Fora
© Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
A atuação filantrópica da família também contou com a participação de sua esposa, Maria Luiza de Rezende Tostes. Integrante do grupo das chamadas "Damas Protetoras" da Liga Mineira Contra a Tuberculose, ela colaborou com a rede feminina responsável pela organização de eventos beneficentes, mobilização de recursos e apoio às ações assistenciais da entidade.
Além da Liga, Cândido Tostes participou da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, uma das mais tradicionais instituições religiosas de Juiz de Fora. Sua atuação nessas organizações reflete o papel desempenhado por parte da elite da cidade, que combinava influência econômica, participação social e envolvimento em iniciativas de interesse público.
Por meio dessas atividades, Cândido e Maria Luiza estiveram presentes não apenas na história econômica da Zona da Mata Mineira, mas também em importantes iniciativas voltadas à assistência e à saúde da população juiz-forana.
Informações compiladas por Pedro Lorenzo Raggio Neto.
Acervo fotográfico e documental organizado por Pedro Lorenzo Raggio Neto.
Acervo fotográfico digitalizado e organizado por Pedro Lorenzo Raggio Neto.